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Quanto de Natalie Lamour há em você?

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Revi pelo youtube.com recentemente a cena de Insensato Coração, da Rede Globo em que Déborah Secco, interpretando Natalie Lamour, depois de se sentir traída e humilhada pelo marido Cortez (Hérson Capri), que atende ao pedido de Vitória (Nathália Timberg) de  não levar a alpinista social ao casamento da neta, vai para a cama com Wagner (Eduardo Galvão). Pura vingança da jovem de origem humilde que, após enfeitar a cabeça do empresário, deixa bem claro ao homem com o qual fez sexo que não sentiu prazer nenhum além do proporcionado pela ideia de que Cortez agora ostenta um belo par de chifres.

Pensei na hora em quantas mulheres já não se deixaram levar pelas emoções, tentaram atingir um homem e acabaram como as maiores vítimas de si mesmas. Natalie tinha tudo o que sempre quis. E também uma autoestima  abaixo do nível das camadas pré-sal.  Lembrei que naquele capítulo, depois de dormir com um homem pelo qual não sentia nada na tentativa de se vingar do marido, ela recorreu ao colo e à casa humilde da mãe, onde sentiu aconchego e o sabor de um prato de arroz doce.

Quando vi a cena pela primeira vez, fiquei com raiva da demonstração de burrice da loira. Depois, senti compaixão por essa  jovem que no final queria ser apenas amada e considerada. Aliás, o que todo mundo deseja. Só que a moça tinha talento inato para trocar os pés pelas mãos.  Talvez o problema maior de Natalie fosse a vaidade. Não confundir isso com autoestima.

Vaidade é quando olhamos para fora de nós, fazemos uma leitura do que achamos que é sucesso no mundo exterior e adotamos essas regras porque queremos o aplauso e aceitação dos outros. Autoestima é o oposto: focamos dentro, observando quem somos – incluindo aquilo que achamos que são pontos fracos e fortes –  e apostamos na nossa diferença para nos estabelecer no mundo. Tem a ver com conhecer-se, processo às vezes um tanto doloroso e que não termina nunca. É a autoestima que nos dá aquela sensação boa de estarmos inteiros e confortáveis dentro dos limites de nossa pele.

Ao assistir a cena, também pensei em algumas figuras públicas. Mulheres que aparentemente têm tudo o que as mortais comuns gostariam para si. Lembrei-me de casos famosos de belas e jovens modelos, atrizes e cantoras que também frequentaram as primeiras páginas porque roubaram algum objeto barato num shopping, ou foram flagradas pelos tabloides cheirando cocaína, ou então tiveram de se defender em um processo por bater em empregados, ou ainda preso por dirigirem bêbadas e drogadas…

Não que possuir beleza, fama ou juventude signifique, obrigatoriamente, que a pessoa que desfruta desses benefícios tenha problemas de comportamento ou transtornos.  Mas esses atributos tão cobiçados asseguram que a pessoa que é dona deles cultiva o amor por si? Pela minha observação, só quem se gosta pode sentir o mesmo pelos outros e estabelecer vínculos reais daquele afeto tão almejado. Uma coisa depende da outra. A gente não pode dar aquilo que não tem. Quem se gosta de verdade, preza sua saúde, bem-estar, a integridade física e emocional.

Mas concordo que é difícil manter a autoestima em nível saudável.  As revistas e propagandas pregam que a mulher realmente feliz é jovem, linda, magra, bem sucedida profissionalmente, ótima esposa, mãe espetacular. Ela está apta para redigir um relatório para o chefe, testar a receita de bolo de carne e ter orgasmos múltiplos com parceiro. Tudo isso ao mesmo tempo, claro.

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