Amor, sexo e muito +

Um espaço para expressão e discussão de ideias

Se o casamento virou o túmulo da vida sexual das minhas amigas, por que elas se sentem no direito de me cobrar um marido?

with 2 comments

(Foto: Chance Agrella/Freerangestock.com

(Foto: Chance Agrella/Freerangestock.com

 

A pergunta aí de cima veio de uma pessoa muito querida, mulher bonita, independente, na casa dos 30, quase 40. Ah, e solteira, coisa muito importante nessa história. Ouvi essa questão da boca dela depois de um desabafo: havia ido a uma reunião com um grupo de amigas da época da faculdade, todas casadas, algumas com filhos e só ela sem um homem para chamar de seu. Essa situação, aliás, já havia se repetindo algumas  outas vezes e minha amiga confessou o descontentamento com esses encontros por não ter mais nenhuma identificação com as antigas companheiras. Mas, nesse dia específico, foi complicado. Num determinado momento, uma das pessoas presentes pergunta para ela, em alto e bom som para todo mundo ouvir: “Afinal de contas, o que é que acontece que você nunca aparece com um namorado? Qual é o seu problema?” Minha amiga diz que na hora sentiu o sangue sumir da face. Como é que alguém, que ela considerava, se sentia no direito de expô-la daquela maneira? Mas já havia acontecido pior: familiares dizendo que ela precisava encontrar alguém para fazer sexo, que era o que faltava na vida dela!

Minha amiga de fato está solteira e sem namorado há um tempo. A moça é dona do próprio negócio. Empreendedora, sempre se dedicou às duas faculdades, cursos de inglês, pós-graduação e uma profissão que exigia muito dela no dia a dia. Namorados? Sim, quando acha os moços interessantes, mexem com seu coração por algum misterioso motivo. Exigente, até hoje não gosta de perder tempo com nada e ninguém que não lhe acrescente de verdade. Tem gente que vai dizer que ela é chata, que se acha. Enquanto a maioria das amigas pôs uma aliança na mão esquerda e foi constituir família como queriam seus pais e a sociedade, ela preferiu esperar. O quê? Alguém que ela considere realmente digno, que ajude a tornar sua existência mais rica, agregue, some. Um cara decente, inteligente, com valores parecidos, por quem tenha tesão. Não, ela não quer alguém para dividir a vida. Ela quer torná-la maior, isso sim!

Voltando ao grupo de amigas, bem, a amizade entre elas continuou após a formatura. Viam-se cada vez menos, é verdade. Mas o telefone ajudava a colocar as novidades em dia. E nos bate-papos, ela falava das conquistas no trabalho novo, das viagens pelo Brasil e exterior, dos cursos que fazia. De vez em quando, conhecia um homem interessante, engatava namoro, mas depois de alguns meses, terminava. Não deu certo? “Ah, claro que deu! E durou o tempo que tinha que durar. A vida é sábia, melhor não brigar com ela e seguir adiante”. E ela seguia, e se aventurava. Muitas vezes se frustrava – ou ao moço – quando percebia que não era a relação que queria. Ex-namorados e ficantes reapareciam e rolavam replays dos melhores momentos. Com o passar do tempo, havia menos homens solteiros disponíveis. Boa parte deles era divorciada ou casada. Tentava evitar os do segundo grupo, coisa difícil e nem sempre conseguia. Principalmente naqueles momentos em que o sentimento de solidão aparecia e o mundo parecia a arca de Noé, na qual todos tinham seus pares. Mas logo ela voltava à razão: “Não dá jogar sobre as costas de um homem a responsabilidade pela minha felicidade”. E continuava sua trajetória, seguindo o coração, desfrutando a liberdade sem pedir permissão a ninguém e cumprindo os compromissos com a vida que havia escolhido.

Do lado das amigas, os comentários variavam, mas eram parecidos: compraram casa maior e, depois, carro novo para a família que aumentou com um, dois, três filhos. A maternidade deu às amigas um novo impulso de vida, motivo de muitas alegrias e surpresas. Boa parte do tempo delas foi preenchida por assuntos que tinham a ver com os filhotes: vacinas, primeiro dentinho, doenças, babás que faltavam sem avisar ou a escolinha que ficava fechada bem no dia daquela reunião importante no trabalho.  Sentiam-se como equilibristas de pratos, sempre tentando fazer felizes maridos, crianças e patrões, sem deixar nada se espatifar no chão e mantendo a harmonia. E, ao mesmo tempo, ainda se desesperavam com os quilos a mais constatados na balança do banheiro, a falta de tempo para pintar a raiz do cabelo. Sem falar que a depilação estava sem fazer há mais de seis meses. Mas, também, para quê? Quem é consegue fazer sexo com tanta pressão no dia a dia e tendo de tomar cuidado para não acordar as crianças? Sem falar do estresse, nas crises que rolavam porque não conseguiam pagar tantas contas, ou os maridos perdiam o emprego, ou se sentiam menos homens porque a esposa era promovida e ganhava mais…

Mas cada escolha envolve uma renúncia, certo? Minha amiga não constituiu uma família com filhos e marido. Não tem esse tipo de compromisso. Conta com liberdade e independência para se relacionar com os homens que quiser se assim o desejar.  Sim, ela passa por momentos em que se sente solitária.  Mas é uma solidão real, honesta, de quem sabe que depende somente de si para fazer as coisas acontecerem. E não aquela vivida por duas pessoas que deveriam ser parceiros na vida e chegam a passar dias, semanas, meses sem se falar direito nem olhar nos olhos, mesmo vivendo sob o mesmo teto.  Gente que pode ter se casado mais para satisfazer a sociedade (afinal, todas as mulheres da família já casaram, só tem eu de solteira!) do que por ter encontrado alguém para somar na vida. Casais que, na cama, ficam de costas um para o outro, mais parecendo inimigos que cônjuges. Mas que também não cogitam se separar: além o matrimônio agora também tem o patrimônio e vivem como reféns um do outro.

Mais intrigante do que o fato de algumas pessoas se curvarem a regras para serem aceitas socialmente é a amiga que expõe outra que, ao final, me parece ter uma vida muito mais honesta e prazerosa entre quatro paredes. Está longe de ser perfeita. Mas sei que se o apartamento dela falasse, contaria sobre algumas aventuras vividas entre lençóis e que ninguém daquele grupo faz ideia porque a discrição muitas vezes se impõe.  E é difícil entender a reserva de alguns em um mundo onde muitos querem ser nas redes sociais o que jamais serão na vida real.

Written by cleofrancisco

outubro 6, 2014 às 8:12 pm

2 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Adorei! e esse título é perfeito! parabéns pela sua sensibilidade de retratar tão magicamente, em palavras, a realidade oculta em tantos corações amargurados.

    Bernadete Druzian

    outubro 20, 2014 at 12:13 am


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: