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Mendicância afetiva: não se submeta a carinho e atenção dados como esmolas

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Dei-me conta de um fenômeno muito comum a minha volta: mulheres que chegam a certa idade e se deparam com a realidade de que quase não viveram para si. São irmãs, mães, esposas, filhas que se doaram intensamente para os familiares mais próximos. Geralmente se viram muito jovens tendo que assumir responsabilidades que não eram suas, mas que caíram sobre suas costas.

Muitas foram trabalhar cedo para ajudar a sustentar a casa, mãe e irmãos e continuaram se sacrificando pelos filhos, sobrinhos, maridos, pais. Todos vinham primeiro que suas próprias necessidades. Parece que essa é sua estrutura interior e não saberiam ser diferentes.

As mais sortudas conseguiram, apesar das dificuldades,  concluir curso superior e bons salários que sumiram ao longo dos meses e anos nos pagamentos para colégios, faculdades, aluguéis, cursos, carros e até pensões alimentícias de filhos que não eram os seus.

Recentemente uma amiga se abriu de forma amarga. Separada após 10 anos de casada, assumiu sozinha a criação dos três filhos pois o pai das crianças não estava nem aí.

Engolindo todos os sapos possíveis e trabalhando sempre muito mais que a maioria para não perder o emprego, ela conseguiu manter-se e a prole. Todos se formaram em boas faculdades, fizeram cursos de línguas, casaram-se e mudaram de residência.

Às vezes ela telefonava para saber se estavam bem, mas a conversa era curta porque as crias estavam sempre muito ocupadas. Quando um filho ia visitar o outro que morava perto de sua casa, ficava na expectativa de que todos viriam almoçar ou tomar um café com ela. Mas isso nunca acontecia. Ainda se lembravam dela quando iam viajar e precisam de alguém para cuidar do cachorro. Mas só.

De alguns anos para cá, começou a ouvir que estava se tornando chata e ranzinza quando dizia que ninguém ligava para ela. O ressentimento e amargura foram aumentando.

Pessoas assim ajudam os outros a solidificarem sua autoestima quando dão seu tempo, amor, dinheiro e a segurança de que cuidarão para que tudo esteja sempre bem. Para os outros. E esses outros também se habituam a ter por perto essa mulher forte,  pau para toda obra e que já provou que não precisa de nada e de ninguém.

Só que essa mulher que passou o tempo todo cuidando das necessidades alheias  se esqueceu de si. Sua autoestima está abaixo do nível do mar. Nem sabe mais quem é, do que gosta, o que quer. Habituou-se  a ser apenas aquela que resolve os problemas dos outros. E se eles não existem, ela não tem serventia.   E, sem perceber, ela se vê assim: esmolando afetos, ligações telefônicas, uma  visita rápida dos filhos para sentir que tem algum valor.

Meu conselho, difícil de colocar em prática após tantos anos agindo da mesma forma é: tente ocupar sua mente e seus dias consigo.  Mude o foco. Não é fácil, já disse. Mas é fundamental parar de alimentar essa amargura. Ela se torna uma teia invisível que nos tolhe e também afasta coisas e pessoas com boa energia.

Faça um diário para colocar no papel ou computador tudo o que está sentindo e seja sincera. Não vale mentir nessa hora. Escreva também quais são seus sonhos, o que gostaria de fazer.  Quer viajar para algum lugar? Aprender uma língua? Fazer um curso? Emagrecer?  Tingir o cabelo de outra cor? Aprender a nadar? Esse exercício de colocar no papel o que se pensa ajuda a clarear a mente de quem raras vezes pode expressar o que sentia de verdade. Lembre-se: essas mulheres tendem a ser sempre boas meninas, que não discutem nem sabem dizer não.

Depois arregace as mangas e, devagar, comece suas mudanças. Nesse processo, a autoestima costuma emergir junto com nosso melhor  que, às vezes, nem nós conhecíamos. Aprendemos também que merecemos respeito, somos todos dotados de riqueza interior e não precisamos da esmola afetiva de ninguém para sermos felizes.

 

Written by cleofrancisco

outubro 27, 2014 às 5:16 pm

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