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Toplessaço no Rio: desculpe nosso retrocesso, Leila Diniz

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Estava lá na manchete do portal: Mulher Melão faz topless contra o machismo.  Ué! Mas ela já não tirou inclusive a parte de baixo do biquíni para uma revista só para machos? Fiquei curiosa. Fui ler a notícia. Era sobre um grupo de mulheres que fez topless hoje (20/01), feriado de São Sebastião, no Rio. Será que a imagem do santo, sempre de torso nu, as inspirou para a escolha do dia? Lembrei-me que ontem os jornais já alardeavam o “evento”, os fotógrafos já estavam pautados para registrar as imagens, assim como os repórteres. Prato cheio para um feriadão de sol e praia.

Parei para prestar atenção nas matérias. Elas se multiplicaram rapidamente, na internet,  pelo Brasil e mundo afora com imagens das belas no ato que pleiteou o direito das mulheres ficarem sem a parte de cima do biquíni nas praias da Cidade Maravilhosa.  E na hora de peitar o machismo brasileiro, as moçoilas ouviram gritos animados dos marmanjos ansiosos:  “tira, tira”.

Observei as mulheres.  Eram todas bonitas, com curvas nos lugares certos e peitos empinados. Não vi nada flácido, nenhuma muxiba. Não vou me surpreender se alguma delas virar capa de revista masculina ou “personalidade da mídia” daqui uns dias. Entre as musas sem sutiã, modelos – inclusive uma cadeirante (talvez a única que tenha realmente ousado em estar ali) – bailarina e jornalista/atriz. Pelo que li nas matérias, a anciã do grupo, tem 35 anos. Em um vídeo no site do evento, a organizadora disse que elas lutavam por mais do que apenas a liberdade das mulheres fazerem topless mas também “pelo fim dos estereótipos de beleza e valorização do corpo da mulher”.  Mas qual mulher? A jovem e de corpo esbelto?  Não vi nenhuma gordinha ou senhora de meia idade sentada ali entre as belas.

E, claro, nas matérias algumas das entrevistadas citaram a coragem da atriz Leila Diniz, que em 1971, durante o período mais pesado do regime militar, mostrou orgulhosamente o barrigão de sete meses na praia, sem nem ao menos ser casada. Mas ela fez isso com a naturalidade que lhe era peculiar. Fez porque sentiu vontade,  como tudo em sua vida.  Leila sempre demonstrou  grande respeito por si e pelo que sentia e uma coragem imensa para assumir quem era e permitir que o mundo também soubesse disso.  Ela era ousada por ser fiel a si.  E sua bravura chamava atenção.

Os veículos de comunicação não ficaram sabendo com antecedência a data e local onde sua foto grávida seria tirada. Leila recebeu os profissionais da revista Cláudia para dar uma entrevista  sobre maternidade e optou por posar com a roupa que já vestia e estava à vontade.  Simples assim.  Sem nenhuma pretensão, esse registro se tornou histórico e símbolo de real liberdade para o corpo feminino em uma de suas fases mais ricas e belas.  Quarenta e quatro anos depois, Leila continua a ser vanguarda. Mas só porque nós, brasileiras, somos meio infantilizadas e insistimos em ser apenas as gostosas.  Não vejo nada de errado em querer objeto de desejo. Mas não podemos nos esquecer de ser também o sujeito da nossa própria história. Como fez Leila.

Written by cleofrancisco

janeiro 21, 2015 às 6:15 am

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